terça-feira, 6 de setembro de 2016

A GUAMPA DE DINHEIRO DA ESTÂNCIA DOS SILVA

A antiga estância dos Silva ficava localizada à margem direita da estrada do Jaguarão Grande, em Candiota, sentido Dario Lassance/assentamentos (área hoje conhecida como Candiotão) e era de propriedade do Sr. Orlando Silva.

Tapera da antiga Estância de Orlando Silva. Candiota-RS.

Orlando a comandava com mãos de ferro e, em questão de três décadas, conseguiu conquistar dinheiro e prestígio na região, com muito esforço e dedicação.
Orlando tinha como costume escolher suas montarias, sempre de pelagem tordilha que, aliás, ao longo do tempo, ficou como sua marca registrada pois, sempre que ia a alguma carreira, marcação ou baile, o identificavam-no de longe como “o homem do cavalo branco”.
Na estância, sempre trabalhou com vários empregados. Entre eles: Luiz Alípio Duarte e sua filha Margarida Duarte.
Luiz relatava que, volta e meia, sonhava com Gaudêncio Silva, ancestral de Orlando, lhe mostrando um local, onde estava escondida uma guampa de dinheiro; porém, Luiz , por ter medo, nunca se animou a retirar.
Com o passar do tempo, Orlando foi ficando velho e doente, acabando por falecer. Uns meses após sua morte, numa noite qualquer, os peões estavam dormindo no galpão, quando, de repente, foram acordados com sons de cascos de cavalo e escaramuçadas. Foram averiguar e se depararam com a imagem de Orlando, bem montado em seu cavalo tordilho.
Tomaram um susto tamanho, que, no outro dia, pediram as contas e se foram embora.
Após a morte de Orlando, dona Margarida não viu mais razões para ficar na estância e mudou-se para a vila de Dario Lassance e ali foi tocando sua vida, normalmente, até que, anos após, sonhou com sua antiga patroa, Aracy Martins da Silva, falecida há vários anos, que lhe indicava o caminho, onde estava escondida a tal guampa de dinheiro, aquela mesma que seu pai falava. Estava chegando bem perto do local, quando, no sonho, tropicou numa pedra e despertou. A partir daí, com medo, nunca mais tornou a sonhar com a patroa.
Para sua surpresa, uma década depois, correu uma notícia na região: um funcionário da Secretaria de Obras da prefeitura de Bagé, ao retirar pedras de dentro da antiga estância, que já estava tapera, encontrou a referida guampa de dinheiro numa cerca de pedra, bem como dona Margarida e seu pai tinham sonhado.
Dizem que o tal homem, quando achou a guampa, admirado com tanto dinheiro, abandonou o caminhão em que trabalhava com todos seus pertences dentro e foi embora a pé, sem deixar rastros. E desde esse momento em diante, ninguém mais ouviu falar de seu paradeiro.

FONTES: Lopes, Cássio Gomes. “Mistérios da Noite – Causos de Assombrações”, Bagé, Pallotti, 2014. 88 p. 


ENTRE O AMOR E A GUERRA

Por volta de 1940, Arlindo dos Santos Nogueira foi trabalhar num tambo de leite na Chácara do Cotovelo, no bairro São Judas, na época interior de Bagé. A propriedade era do casal José Marimon e Maria da Glória Marimon, os quais tinham três filhos, sendo uma moça de nome Ondina, primogênita da família. Ela era morena de olhos castanhos. Arlindo bem que tentou resistir aos encantos da bela, mas não conseguiu e ambos acabaram namorando, contra vontade da mãe dela.
Tempos depois, Arlindo deixou a chácara para servir ao exército, no 3º Regimento de Cavalaria a Cavalo. Nisso estourou a Segunda Guerra Mundial e o Brasil, logo em seguida, apoiou o exército aliado. Começou-se então, em 1944, o processo de recrutamento por todo país. Arlindo não pensou duas vezes e se prontificou para essa nobre e importante missão. Após, comprou um par de alianças e foi até a casa de sua amada e prometeu que, se Deus permitisse que retornasse, os dois se casariam.

Foto de Ondina Marimon que Arlindo levou para Guerra

Para família, Arlindo não contou nada e, após arrumar sua mala, foi ocultamente até a estação ferroviária. Mas, pouco antes de embarcar, seu pai descobriu seu destino e tentou convencê-lo, aos prantos, para que não fosse. Entretanto o patriotismo falou mais alto e Arlindo partiu rumo a Rio Grande. Dali foi para o Rio de Janeiro, em fevereiro de 1944, onde ficou três meses em treinamento.
A viagem pelo oceano foi longa e cansativa e, depois de alguns dias, enfim chegou a Nápoles, em julho de 1944. Em solo italiano, além de enfrentar os inimigos, conviveu com a miséria daquele povo, o qual ajudava sempre que podia através de doações, principalmente para crianças. Mas, o mais difícil nesse período foi a saudade dos familiares e de sua amada, que compensava enviando fotos e postais.


Foto que Arlindo (a esquerda) enviou da Itália: “Vai a minha fotografia em prova de amor a minha querida Maria Ondina para lembrança do expedicionário brasileiro Arlindo dos Santos Nogueira”.

No teatro de operações, viu vários companheiros tombarem em campo de batalha. Em suas orações pedia a Deus que o protegesse. A Guerra já arrastava há meses. As chuvas e o frio deixavam o inverno europeu tiritante. O exército aliado tinha como objetivo tomar Monte Castelo, o que conseguiu após quatro tentativas frustradas, no dia 21 de fevereiro de 1945. Após a missão cumprida, Arlindo somente retornou para o Brasil quatro meses depois.
Em Bagé, após rever a família foi procurar a amada, mas não a encontrou, pois sua família tinha se mudado e ninguém sabia seu paradeiro. Então Arlindo lembrou que Ondina costumava cantar na Igreja Auxiliadora e, numa missa dominical, enfim a reencontrou depois de um ano e meio separados. Após, casaram e tiveram três filhos, sete netos e cinco bisnetos.

FONTES:
Lopes, Cássio Gomes e Lucas, Edgard Lopes. “A Rainha da Fronteira – Fragmentos da História de Bagé”, Bagé, Pallotti, 2015. 183 p. 


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

História e tradição oral em "Mistérios da noite – causos de assombração", de Cássio Gomes Lopes


Resenha escrita por Valdomiro Martins (*):


No incipiente século XX, Simões Lopes Neto publicou os primeiros clássicos de nossa literatura regional e brasileira. São relatos intimamente ligados à tradição oral da campanha gaúcha. Neto não buscava o reconhecimento nem a imortalidade do nome, mas garantir que essas “lendas” e “causos” de livros como Lendas do Sul, não se esfarelassem e fossem soprados ao infinito do esquecimento. Nessa esteira, vieram outros como Darcy Azambuja com No galpão até culminar com Érico Veríssimo com seu épico O tempo e o vento e a personificação da mulher e do homem gaúcho. E, claro, nosso caro Severino R. Moreira e os inúmeros causos irreverentes que dialogam com figuras ilustres da região, como nosso inesquecível padre Fredolin Brauner.
Um povo sem cultura é um povo sem memória, sem raízes. Nossa linguagem a reflete quase que por completo, pois em nossas palavras há marcas de nossas histórias e costumes. E quando em tempos de mundo virtual, individualidades e desfragmentação identitárias, eis que surge o livro Mistérios da noite-causos de assombração, de Cassio Gomes Lopes. Historiador de ofício, colunista e defensor do bioma pampa, Lopes tem demonstrado ser daqueles homens que levam a sério os compromissos e desafios a que se propõe. Em Mistérios da noite, não temos um livro puramente imaginário, alucinógeno onde bastaria escrever o que se compartilha com o senso comum dos jovens da atualidade. Nele, há resgate onde Lopes buscou direto nas fontes a essência do seu projeto. Como um típico jornalista investigativo, ouviu cada testemunha, mesmo que algumas não fossem diretas, não deixam de sê-lo, pois tiveram contato com as de primeiro grau e sabiam onde os fatos ocorreram. Assim, Lopes exclui sua autoria dos fatos e se posiciona como relator. E todos esses lugares foram visitados! Comprova-se a competência do historiador. Entretanto, o ponto não é discutir as veracidades das narrativas. O que nos interessa são os conteúdos contidos. Nelas há fatos inusitados que se apresentaram perante os desavisados e descrentes. Há o crânio rebelde que, por algum motivo, não permanece enterrado. Há ossos perdidos em buracos de mulitas, de quem seriam? E as luzes e bolas de fogo que circundam e desaparecem em capões de mato? Pertences alheios, cabritos intrigantes, ginetes fantasmas e outras cenas enigmáticas... a indicação de moedas enterradas, quem se atreve escavar? E confesso: a voz que diz “Não mexe no que não é teu”, arranhou-me a espinha.
“O tempo não volta”, escreve Severino na apresentação do livro de Lopes, mas podemos sim mantê-lo em diálogo especialmente íntimo. Percepções de um aroma, de uma imagem ou de histórias, como as deste livro. Suas palavras dele são correntes que nos levam e nos trazem a tempos que jamais retornam, mas sempre continuarão lá, à nossa espera. Mistérios da noite faz esse papel. Mantém firme a aliança com nossas raízes. É o barco que nos conduz no rio das lembranças, o álbum de fotografia que nos desvela o passado. Tudo por intermédio de uma linguagem que nos aproxima e nos protege, assim como faziam nossos pais, avós e antepassados à beira da cama ou do fogo, nos quartos ou nos galpões. 

(*) Valdomiro Martins nasceu em Bagé, em 1978. É professor de curso preparatório e escritor, autor de livros de contos, como “Guerrilha e solidão (Literális-2008)” e “O ruído áspero da vespa (”, novela. É formado em Letras com especializações em Literatura e História. Atualmente, frequenta o curso de mestrado em Letras, PUC-RS, na linha de escrita criativa.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O DUELO DO COMBATE DAS TRAÍRAS

A Revolução Federalista de 1893 foi uma das mais violentas da América, com episódios que ressaltam o valor e o destemor das legiões envolvidas. Um deles foi o que aconteceu em 6 de novembro de 1894, no município de Bagé, próximo ao Arroio das Traíras, no distrito de Palmas.
Surpreendido com 230 soldados em campo aberto, numa coxilha de um quilômetro de extensão, reta como uma gigantesca mesa de bilhar, o tenente-coronel Cypriano Ferreira, legalista, resolve adotar o quadrado inglês de infantaria para enfrentar os 450 maragatos de cavalaria, comandados por José Bonifácio da Silva Tavares, “Zeca Tavares”, começando a luta sobre a referida coxilha.
A cavalaria maragata é intrépida e, não menos bizarra, a infantaria legalista.
Os quadrados ingleses dos pica-paus quase não resistiam às repetidas cargas de cavalaria, investidas impetuosamente, pela ousadia dos maragatos, com grandes perdas de lado a lado. Para resistirem, começaram a recuar em direção à casa da estância de Antônio Vieira, a pouco mais de um quilômetro da mencionada coxilha. Na retirada estratégica dos quadrados, intensificaram-se as cargas revolucionárias e, os corpos abatidos pelas lanças eram, imediatamente, substituídos, mantendo-se intacta a integridade dos quadrados.
Ao entrincheirarem-se na casa, o combate se intensifica de tal forma que os combatentes se lanceiam através de portas e janelas e, naquele alarido infernal do “bate-boca atrevido dos facões”, quando se batiam com o mais denodado valor e com cego fanatismo, alguém, pica-pau ou maragato; aquele, de dentro da casa e este, no pátio da estância desafia para uma peleia corpo a corpo.
Todos os conflitos de gaúchos aconteciam com a arma branca e, de ordinário, submetidos a certos códigos de honra e sem interferência de parceiros ou estranhos. Assim, por um instante, cessa o combate e todos se concentram no espetáculo que está por acontecer.
O capitão maragato de sobrenome Sagaz, de lança, e o alferes pica-pau, Manuel Lourenço, de sabre, se jogam ao pátio da estância e, estão frente a frente, negaceando-se e brandindo as armas com prodigioso e sinistro malabarismo, enquanto espiam, com olhos felinos, o menor descuido do adversário para buscar um espaço favorável na peleia.
O choque de seus “talheres”, enerva os expectadores com sua estranha voluptuosidade. Na refrega buscam inspiração de uma manobra para vencer o rival e zeloso competidor da fama e da glória.
Ambos, postados em guarda ou no ataque, mantinham a elegância de uma postura varonil, sem perder a harmonia de homem valoroso ao retroceder sem fugir do combate.
Os dois, com bravura sem limites, se matam, retalhando-se horrivelmente, com a altivez crioula que os conduziu, irremediavelmente, para a morte ! Morreram, com a morte merecida, com a morte dos guapos, como centauros invictos !

Fonte: LOPES, João Máximo. “Habilidades Campeira nas Guerras do Sul”, Camaquã, Núcleo de Pesquisas Históricas de Camaquã, 2012. 125 p.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

GAÚCHOS QUE REJEITARAM O BARONATO


O costume de conceder títulos de nobreza, no Império do Brasil, tem origem na herança cultural e política de Portugal. Reis de Portugal, desde o século XV, premiavam com títulos e comendas os que auxiliaram o governo de alguma forma. Foram agraciados, por exemplo, os que lutaram pelo rei na expansão das conquistas portuguesas na África e na Ásia. A maioria dos nobres lusitanos da época vivia com rendimentos fornecidos pela Coroa portuguesa ou com a liberação do pagamento de taxas e impostos para suas atividades. Eram as “benesses”, as “mercês”.
A monarquia do Brasil, com D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II, adotou prática similar, concedendo títulos de forma a conseguir apoio e aliados. Só que a situação era um tanto diferente, pois os nobres recém-agraciados tinham outra ocupação: não eram guerreiros, mas homens ricos, que viam o título como prestígio social. No Brasil, para que um filho ou herdeiro recebesse o título do pai, teria de pedir novamente ao imperador, que poderia, ou não, concedê-lo. A nobreza não foi, em nenhum momento,  hereditária. Essa troca de favores entre os imperadores do Brasil e os produtores enriquecidos ajudou a monarquia a se manter no Brasil por 67 anos.
D. João VI concedeu, entre 1808 e 1821, 119 títulos; o imperador D. Pedro I, 134, entre 1822 e 1831; D. Pedro II foi o mais disposto a agradar, distribuindo 1 065 títulos de 1841 a 1889. O título de barão estava reservado, desde a época de D. João, aos proprietários rurais que se projetavam por sua riqueza, mas não por suas participações nos altos postos do governo do império. Títulos mais elevados, como os de conde e marquês, estavam destinados aos que compunham a elite política imperial.  Durante o império, o título mais concedido no Brasil foi o de barão. Os títulos brasileiros, em geral, estão relacionados com batalhas, cidades, sobrenomes, nomes de fazendas e acidentes geográficos.  Para a maioria, receber um título de nobreza era uma honraria inegável, mas não para os gaúchos Gumercindo Saraiva e José Gomes Portinho. O primeiro recebeu um emissário de confiança de Dom Pedro II para oferecer-lhe o título nobiliárquico de “Barão de Santa Vitória”, que não o aceita. Não se sabe as razões por que recusa, porém, alguns pesquisadores e historiadores acreditam que, a hipótese mais provável, seja por ideal.  O segundo, por sua vez, recusa o título com que foi agraciado, de “Barão de Cruz Alta”, respondendo, de seu próprio punho, com a seguinte declaração: “Não aceitei o baronato. Se existe o presente título em meu poder, é porque me foi mandado de presente pelo meu amigo Visconde de Pelotas, pedindo-me que o aceitasse e fizesse dele o uso que entendesse, porém, não o devolvesse. Por essa razão guardei-o, inutilizando-o e rasgando-o e lavrando a presente declaração, para que em todo o tempo conste as razões que me assistem para recusar, são muitas, as quais julgo desnecessário especificar. Porto Alegre, 16 de Setembro de 1879 – José Gomes Portinho”. 

Fontes:
1 Organizador: Figueiredo, Luciano. “História do Brasil para ocupados: os mais importantes historiadores apresentam de um jeito original os episódios decisivos e os personagens fascinantes que fizeram o nosso país.”, Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2013. 504 p.
2 Bellomo, Harry Rodrigues. “Os Barões Assinalados – A presença da realeza e da nobrena no Rio Grande do Sul”, Porto Alegre, Martins Livreiro, 1999, 76 p.
3 Dornelles, Sejanes. “Gumersindo Saraiva – O guerrilheiro pampeno”, Caxias do Sul, EDUCS, 1988. 248 p. 
4 Clemenciano Barnasque. “Ephemerides Rio-grandenses”, Porto Alegre, Selbach, 1931.350 p.


LIXIGUANA E SUAS SINGULARIDADES

Lixiguana/Lechiguana/Lichiguana é uma espécie de vespa, que produz mel muito saboroso por ser mais suave do que mel de abelha. Constroem suas colmeias em arbustos de pequeno porte (xirca) em campo aberto, em matos (farelenta) e forros de residências. Sua "casa", geralmente em formato oval, é lisa, diferentemente do camoatim que é cônica e possui saliências em forma de “bicos”.
Em alusão à existência em grande quantidade dessa vespa, comum da campanha gaúcha, foi denominado um arroio afluente do rio Camaquã e uma localidade no distrito de Palmas, interior de Bagé. Segundo o “Diccionario de Quichua de Domingo Bravo”, “lachiguana” es un sustantivo que designa una "colmena aerea suspendida”.
À margem direita do referido arroio, situa-se a sede da antiga Estância do Sobrado, que foi construída em 1801, por Laurindo Teixeira Brasil. Ao norte da casa principal, existe um relógio de sol, confeccionado pelo engenheiro alemão, Augusto Alberto Stuky. Ele foi o agrimensor que fez o primeiro nivelamento e alinhamento das ruas de Bagé, cujo plano de urbanização foi assinado em ofício de 10/10/1881. Mais tarde, passou uma longa temporada nas Palmas, principalmente nas fazendas dos Collares. Como prova disso, temos o inusitado relógio de sol, que permanece sempre fiel ao passar do tempo. Para transcrevê-lo, basta dizer que é um quadrado de pedra argilosa, da mesma pedra com que foram construídas as calçadas do velho solar; possui uma haste de ferro no centro, chamada de gnômon, que é um ponteiro do relógio solar; essa haste é ajustada segundo a latitude do local, apontando para o polo celeste acima do horizonte; a luz solar faz com que a sombra do gnômon descreva um semi-eclipse no mostrador graduado, que é dividido em vinte e quatro partes iguais, ou seja, nas doze horas do dia. Os algarismos em caracteres romanos são dispostos de maneira inversa à dos relógios mecânicos, de forma que os horários matutinos ficam à direita do observador e os vespertinos à esquerda. 
Também nessa localidade, ocorreu o primeiro disparo ou teste de foguetes realizado pelo exército brasileiro, no dia 7 de fevereiro de 1827. Nessa data, o tenente alemão Luiwig August Siegner; a serviço do exército brasileiro estacionado em Bagé, durante a Guerra da Cisplatina (1825/1828), realizou vários testes com o que era, então, considerada uma nova arma de guerra. Lamentavelmente, num dos tantos disparos experimentais de foguetes ocorridos em Bagé, naquela data, o militar inventor feriu-se, vindo a falecer dois dias após, na cidade de Caçapava do Sul, local a que havia sido conduzido para receber o necessário tratamento de saúde.
Em homenagem e reconhecimento ao esforço do tenente Siegner, a Avibrás Indústria Aereoespacial S.A ergueu um monumento localizado em frente ao ginásio esportivo Presidente Médici (Militão) que reproduz um foguete, no qual se encontra uma placa de bronze que descreve o acontecimento e seu pioneirismo.

Fontes:
1 Oliveira, Cândido Pires de. “Alma, Terra e Sangue – Fragmentos da História das Palmas, Bagé”, Bagé, 2011. 260 p. 
2 Lemieszek Claudio de Leão e Elida Garcia “Primazias de Bagé – Um Guia Incompleto”, Bagé, EDIURCAMP, 2013, 158 p.

BONEVAL COPA DO MUNDO

Adão Cavalheiro Maurente nasceu no início da década de 1940, nos Olhos D’água, próximo ao Corredor do “Tata”, interior de Bagé. Filho de Iracema Cavalheiro Maurente e Francisco Donzel Maurente, conhecido como “Cabo Maurente”. Entre a infância e adolescência adotou o apelido de “Boneval”, em homenagem a um militar de mesmo nome a quem admirava. Logo cedo começou a trabalhar nas estâncias da região da Bolena, Palmas, Tunas, Baú. Por não ficar muito tempo em um lugar só, ganhou o apelido de “Copa do Mundo”.
Nas marcações e rodeios destacava-se pelo seu porte físico, destreza e força com os animais. Nesses eventos, costumava apertar os terneiros de ano solito e também sujeitava as vacas mais gordas do rodeio segurando as mesmas por uma das patas traseiras. E nas comparsas de esquila carregava as bolsas de lã no ombro como fossem sacos de batata.
Nas suas horas de folga gostava de frequentar carreiras de cancha reta. E foi numa penca na cancha anexa ao bolicho de Maurício Campos, na Bolena, que Boneval, até então um individuo pacato, se rebelou e reagiu à provocação de um “guampa torta”, dando-lhe uma “baita sumanta”. A partir desse momento, passou a ficar conhecido e cada duelo que vencia, mais aumentava sua fama. No entanto, não era de puxar briga, só quando era desafiado. Na época, muitas pessoas, por causa de sua fama, ao saber que se aproximava, ficavam com medo. Mas se preocupavam em vão, pois Boneval, por onde passava deixava saudade, pela sua camaradagem, serventia e humildade. Certa feita, na Chácara da Cortiçeira, na Bolena, Ângela Campos, na época com oito anos, foi passear na casa de sua madrinha distante dois quilômetros. Quando estava retornando acompanhada de mais três pessoas, foram surpreendidos por uma tormenta de verão e quando chegou em casa, foi Boneval quem a ajudou descer do cavalo.
Outra coisa que adorava fazer era caçar tatu e mulita, com os quais presenteava os amigos da cidade. Aliás, quando vinha à cidade, costumava frequentar os seguintes bares:
• Cimirro, no Povo Novo (atual São Pedro);
• Júlio Campos, no bairro São Jorge, quase Laranjeiras;
• Margarida, no Bairro São Martim.
Neste último, meteu um baita bochincho e foi acionado o policiamento, que na época era misto. A primeira a chegar foi a Polícia Civil, composta pelo Inspetor Piançu e mais três policiais que não conseguiram retirar Boneval do recinto. Então, chegou o reforço da brigada militar e, quando todos pensavam o pior, Boneval, ao ver o sargento Távora, o abraçou chorando e se entregou.
Também na cidade, volta e meia se enfurnava nos cabarés da baixada, entre eles o “Pai Faca” e Acúrcio. Neste, um individuo lhe deu um tapa no seu rosto, o qual revidou, montando no ombro do homem e puxando violentamente seus cabelos e só o soltou no reflexo depois que queimaram seu braço com cigarro. E foi num desses cabarés que Boneval arrumou enrosco com uma mulher de apelido “Sarará”, com a qual teve um filho por codinome “Diabo Loiro”.
Assim era a vida de Boneval, entre o campo e a cidade, até que, após um dia inteiro de bebedices no bolicho do Maurício Campos, na Bolena, foi surpreendido por dois indivíduos no retorno para as casas. Já era noite e os homens aproveitaram um momento de descuido de Boneval e lhe golpearam a nuca com um mangaço. Desacordado, Boneval foi colocado num baixo da estrada e coberto por pelegos. Algum tempo depois, um estancieiro, por acidente acabou passando de jipe por cima de Boneval. Quando percebeu o fato, parou e foi verificar o que era aquilo e ficou surpreso ao encontrar seu ex-peão desacordado. De pronto o socorreu e o levou imediatamente para a Santa Casa de Bagé e pediu para que os médicos fizessem de tudo para salvar aquela vida. Mas não adiantou e Boneval acabou falecendo oito dias após. Depois do velório, o corpo de Boneval foi levado num caminhão verde até o Cemitério do Palmito, próximo ao Passo dos Perez, nos Olhos D’água, por volta das 11h da manhã, onde foi sepultado na presença de pouquíssimas pessoas.
Faz mais de trinta anos que Boneval se foi, mas sua história permanece bem viva na memória de várias pessoas que o conheceram e foi eternizada nos versos do professor e poeta Diogo Corrêa, através da música “Boneval: O Tal Copa do Mundo”,  que concorreu a 2ª Galponeira de Bagé, no ano de 2005.

FONTES: Lopes, Cássio Gomes e Lucas, Edgard Lopes. “A Rainha da Fronteira – Fragmentos da História de Bagé”, Bagé, Pallotti, 2015. 183 p.