sexta-feira, 27 de junho de 2014

SILVEIRA MARTINS E O ESCRAVO DE SEU PAI

                                                          Gaspar Silveira Martins
                            (Quadro pertencente ao Centro Nativista Gaspar Silveira Martins)

O Dr. Gaspar Martins, nascido em Aceguá, no lado uruguaio, na estância de seu pai, Carlos Silveira, matriculou-se na Academia de Direito de São Paulo e, pelas férias, vinha sempre gozá-las, com a família, no lugar onde nascera...

Naquela época, ainda havia escravos, e seu pai possuía na estância um mulato que, embora bom campeiro e trabalhador, lhe dava muitos incômodos. Devido ao bondoso coração de seu amo e à autonomia de que gozava em suas lides campeiras, não se dava conta de que era escravo. Era-o, porém, perante a lei. Nascido naquele ambiente onde a liberdade se respira a largos sorvos, era de uma compleição física admirável, altaneiro e destemido. “Bom de laço”, domador e boleador, era um perfeito gaúcho.

                                                              Carlos Silveira
                                 (Foto gentilmente cedida pelo Jornalista Sidimar Rostan)


O incômodo que dava ao seu senhor e patrão era que toda vez ia tomar um trago “de cana en la pulperia” (venda-bolicho), tinha forçadamente de “pelear” com os “castelhanos”. Eram frequentes essas brigas, que muito desgostavam ao velho Carlos, porque, sendo muito respeitado pelos uruguaios, procurava corresponder essa atenção vivendo em paz com seus vizinhos.

O mulato, entretanto, era um empecilho a esse desejo. Seguidamente o estancieiro recebia queixa do comissário de polícia, dizendo que o seu peão havia provocado uma luta de que resultara – “hondos herimientos e largas contuziones”. Sempre que isso sucedia, o estancieiro mandava vir o mulato à sua presença e admoestava-o asperamente.

Cabeça baixa, chapéu na mão, o mulato não articulava uma palavra. De certo modo aquela humilde atitude sensibilizava o senhor, trazendo ao seu julgamento até circunstâncias atenuantes, como se fossem as de se achar ele sempre só naquelas lutas, além de não ter certeza de quem teria partido a provocação.

Esses fatos repetiam-se quase todos os meses. Uma coisa também impressionava o estancieiro... é que, a julgar-se pela descrição da “queixa”, as lutas deveriam ser muito fortes”... Mas o mulato jamais trazia delas qualquer vestígio!

Verdade seja que, contando aos companheiros, no galpão da estância as peripécias dessas brigas, ele arrematava sempre com as palavras “saí limpo”, no que os outros achavam muita graça.

No Chuí, nossa fronteira próxima a Jaguarão, morava um compadre e amigo do velho Carlos Silveira – Lycurgo José de Figueiredo, estancieiro naquele departamento e que, de tempos em tempos, se o seu compadre por lá não aparecia, ele ia ao Aceguá, passando com o amigo muitos dias. Em uma dessas ocasiões, dera-se com o mulato um dos costumados conflitos. Já cansado e, vendo que o mulato não se corrigia, pinta-o em poucas palavras ao amigo que o visitava, dizendo: “você leva-o para sua estância. É um bom peão. Ele lá não conhece ninguém e, não tendo inimigos, como por aqui, não haverá necessidade de andar brigando.” Lycurgo, concorda e, de volta ao Chuí, levou o mulato em sua companhia.

Já eram passados muitos meses quando, um belo dia, apresenta-se ele em Aceguá trazendo um bilhete a seu senhor. Nesse bilhete, Lycurgo dizia que o mulato continuava a ser o mesmo que era no Aceguá, em constantes brigas com castelhanos e que ele, Lycurgo, não mais estava disposto a aturá-lo, e por isso, o devolvia.

Nesta ocasião Gaspar Martins terminava sua estação de férias e aprestavam-se os preparativos de sua viagem a Pelotas, donde tomaria o vapor que o conduziria a São Paulo. Carlos chama o filho, mostra-lhe o bilhete do amigo e diz referindo-se ao mulato: “leve-o e venda-o em São Paulo... Também não posso mais aturá-lo...” Gaspar obedeceu. Leva-o em sua comitiva e diz-lhe ao chegar a Pelotas: “Amanhã, às 2 horas, vou tomar o vapor, e quando eu embarcar, quero vê-lo na prancha do vapor, ouviu? “Sim, senhor”, respondeu o mulato, respeitosamente.

Efetivamente, no dia seguinte, Silveira acompanhado de poucos amigos, entre os quais um filho do velho Lycurgo e de alguns colegas, vai tomar o vapor.

Ao embarcar vê o mulato no meio da prancha, segurando os arreios enfeixados, como é de uso na campanha.

Ali estava todo o seu aviamento de campeiro, laço, boleadeiras, chilenas de ferro, o rabo de tatu, entre os pelegos, o facão, e o xiripá. Silveira, vendo-o com aquele volume à mão, pergunta impensadamente e algo impaciente: “Para que isso?”... O mulato se surpreende, e comovido, responde:

“Ueé, seor moço?!... Meus trens!!!"

Silveira encaminha-se para o vapor. Dirige-se ao comissário e pergunta onde tem papel e tinta. Este mostra-lhe a escrivaninha de bordo.

Silveira assenta-se e os amigos o veem redigindo a largos traços qualquer coisa que se parecia com um ofício. Dobra-o, passa entre os amigos, mostra-o e diz-lhes: “È a sua carta de liberdade. Homens como esse não se tiram do Rio Grande. Seria para eles um suicídio”.

Vai até o mulato entrega-lhe o papel dizendo: “Aqui tens a tua carta de liberdade. És um homem livre, podes trabalhar onde quiseres...mas não volte para o Aceguá, a fim de não aborrecer meu pai!”


FONTE:

AZAMBUJA, Bento Martins de. “Recordações Gaúchas”, Camaquã, Núcleo de Pesquisas Históricas de Camaquã, Reeditado em 2007. 152 p. 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

ULYSSES REVERBEL

                                                        Ulysses Reverbel


Ulysses Reverbel nasceu em três de novembro de 1846 em Santana do Livramento, filho de Antoine Celestin Charles Reverbel (Carlos Reverbel) e de Leocádia Pimentel de lima.

Diz Carlos Reverbel, o escritor, em depoimento à Jornalista Cláudia Laitano: “Meu tio-avô, Ulysses Reverbel, foi o principal responsável pelo vínculo da família com a tradição maragata. Ulysses era político em Quarai e Livramento e foi um dos signatários do manifesto lançado por Joca Tavares em 1893, anunciando a Revolução Federalista. Quando a Revolução terminou, em 1895, Ulysses Reverbel foi obrigado a fugir para o Uruguai para escapar das perseguições republicanas, nascia assim o ramo uruguaio dos Reverbel”.

Ulysses Reverbel foi político e chefe militar na Revolução Federalista, desde o seu início como tenente-coronel e no final como Coronel Comandante da 1ª Brigada de Cavalaria (150 praças), integrando as forças lideradas pelo Almirante Saldanha da Gama. Este assim definiu a Fisionomia de Ulysses Reverbel, em seu diário, no dia 29 de Janeiro de 1895:

“O Coronel Ulysses Reverbel, apesar do desalinho de seu vestuário, apresenta o aspecto de um militar alemão. Baixo, redondo de corpo, cabeça e cara larga, animada por dois olhos pequeninos, porém vivos. Tem a tez mui tisnada. Os cabelos apenas começam a pintar. Usa bigode aparado à moda antiga. É o que melhor se exprime e mais falante de todos esses chefes. Na sua linguagem, notam-se argúcias de fino rábula”.
Conta seu neto, Ulysses Pereira Reverbel: “Su abuelo materno, Ulysses Reverbel, quien era brasileño, durante la revolución del Almirante Saldanha (Revolução Federalista) intervino activamente con el grado de Coronel. En ese entoces, el abuelo materno hipotecó sus campos y con ese dinero compró armas para ayudar a la revolución”.

“Quando o Almirante Saldanha foi morto numa batalha e desmoronou a revolução, Ulysses se fixou, com esposa e filha, no Uruguai. Teve que vender seus campos para pagar a hipoteca. Para poder se recuperar comprava gado na Argentina e levava para o Uruguai. Sem dúvida era uma homem de fortes convicções e muita força. Era vastamente reconhecido por ter tido a valentia de abandonar tudo para lutar por um ideal. Este abuelo no tuvo participación activa en política en territorio uruguayo.”

Ulysses Revervel casou, a primeira vez, a cinco de dezembro de 1869 em Santana do Livramento, com Laurentina Silva, nascida em 1846 em Artigas e falecida em 1883 também em Artigas. Deste casamento teve uma filha chamada Adélia. Viúvo, casou a segunda vez com Amanda Silva, nascida a 22 de outubro de 1869 em Quarai, tendo falecido em Artigas a 1º de fevereiro de 1941.
Interessante assinalar que a segunda mulher de Ulysses era filha da primeira.


Ulysses Revervel faleceu na Estância do Cuaró, em Artigas, a 24 de março de 1915, com 68 anos de idade. 


                 "A Escondida", estância de Ulysses Pereira Reverbel em Cuaró.  



Fontes: 

SILVEIRA, Gustavo Py Gomes da. "Os Reverbel", Porto Alegre, Edições Caravela, 2012. 184 p.
           
AXT, Gunter; MARTINS, Hélio Leoncio; COSTA, Milena Cardoso. "Diário e Correspondências do Almirante Saldanha da Gama:  Luiz Felipe de Saldanha da Gama",  Porto Alegre, Edição Sulina, 2009. 200 p.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

EXPEDIÇÃO “VILA DOS TUCOS – OS MORTINHOS”, CANDIOTA-RS

Em 1884, foi concluída a construção da estrada de ferro Rio Grande/Bagé. Em Candiota existia quatro estações e algumas paradas:

·        Bomba do Candiota (parada);
·        Estação Candiota;
·        Parada Apleby (mais tarde Estação Dario Lassance);
·        Estação Santa Rosa (Seival);
·        Parada Augusto Duprá.

No intervalo dessas existiam algumas vilas de “tucos” (como eram conhecidos os trabalhadores da rede ferroviária responsáveis pela manutenção e conservação da linha). Eles residiam com suas famílias em chalés de madeira e recebiam assistência médica e religiosa através de profissionais da própria RFFSA (Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima). 
O terreno entre as Estações Candiota e Dario Lassance era bastante instável. Constantemente cedia em alguns trechos, causando alguns acidentes. Os mais famosos foram o “do corte” e “os mortinhos” por ali terem sucumbido dezenas de pessoas. Conforme o relato de pessoas mais antigas, o trem descarrilhou e caiu num barranco. Com o impacto, a locomotiva pegou fogo, vitimando o maquinista que ficou preso nas ferragens.
                                                                                      Local do acidente "dos Mortinhos" 
                                     Foto Cláudio Greco Castañeda

 Poucos meses antes de falecer, seu Custódio Chagas, que trabalhou na RFFSA entre as décadas de 1950 e 1960, me concedeu uma entrevista relatando como foi o acidente do corte, no qual o trem descarrilhou e tombou interrompendo o fluxo da estrada de ferro. Conforme Chagas, quando acontecia um acidente desse tipo eram deslocadas várias turmas de “tucos” que trabalhavam sem cessar até desobstruir a via.
                              Custódio Chagas no acidente "do Corte"

Essa estrada foi desativada em 1969 e durante minha infância, nas décadas de 1980 e 1990 muitas vezes transitava por ali à cata de butiás. 
                          Antiga estrada de ferro era repleta de butiazeiros. 
                                      Foto Cláudio Greco Castañeda

Ali conheci o local do “corte”, dos “mortinhos” e onde ficava a vila de “tucos”, onde existia além de uma quinta de pereiras, uma gruta de águas cristalinas das quais eu sempre bebia.
                                                       Local onde ficava a Vila dos "Tucos"
                                                            Foto Cláudio Greco Castañeda

                                                 Quinta de pereiras
                                        Foto Cláudio Greco Castañeda

Transcorridos 15 anos, por volta de 2005, o proprietário do campo, infelizmente vendeu o local para extração de carvão. Em pouco tempo de atividade o lugar foi quase que totalmente devastado. Mas o “corte” ainda permanece conservado onde se pode ainda avistar algumas aves silvestres. 
                                            Foto atual "do corte" 

O banhado dos “mortinhos” esta tomado de cinzas e as águas que correm dele são avermelhadas com forte odor de enxofre. 


Dali em diante, a parte esquerda está parcialmente revirada e no lugar foram plantados eucaliptos. Na faixa que sobrou, foi semeada uma palha brava no meio dos chircais, que tapam um homem a cavalo. 

A quinta de pereiras e a gruta não existem mais. Ficou somente um monte de terra e pedras, repleto de eucaliptos onde não se avista uma alma vivente, nem ao menos uma serpente.


Por essas e tantas outras está mais que comprovado que a extração de carvão em Candiota foi extremamente maléfica, pois liquidou com a fauna e flora outrora existentes, além de poluir sangas e arroios afluentes do Arroio Candiota.

 Segundo especialistas, gerar energia através da queima de carvão é um retrocesso, pois essa era a última alternativa na qual deveria ser utilizado esse mineral.

Salários dos servidores da Prefeitura Municipal de Bagé: "UMA VERGONHA NACIONAL".

Atualmente a prefeitura de Bagé é o maior cabide de emprego da cidade. Tem cerca de cinco mil funcionários entre servidores, contratados e cargos de confiança. Com tão elevado de funcionários em seu quadro há de se perguntar: Como podem faltar calceteiros e operadores de máquinas? Simples: Porque o executivo oferecebaixíssimos salários aos servidores. Segundo estatísticas os mesmos são os menores da região. Muitos ganham soldos tão baixos que precisam receber um abono para completar o mínimo nacional, enquanto um expressivo número de CCs recebem, muitas vezes, sem fazer quase nada, um gorda remuneração. O vale alimentação é de R$7,00/dia trabalhado e por isso foi apelidado de "vale pancho". O ambiente e o clima de trabalho são ruins, pois na maioria das vezes não se tem as mínimas condições necessárias para o efetivo cumprimento das tarefas, sem falar nas frenéticas perseguições políticas para queimar, gelar, aniquilar e exterminar oponentes. Isso explica o grande índice de rotatividade de pessoal do executivo, pois muitos deixam a estabilidade em busca de novos horizontes e uma melhor qualidade de vida no setor privado. Por esses e tantos outros fatores, a Prefeitura Municipal de Bagé é sem dúvida: "UMA VERDADEIRA VERGONHA NACIONAL".

terça-feira, 1 de outubro de 2013

EXPEDIÇÃO PEDRA DE TORRINHAS, PINHEIRO MACHADO-RS

                                                                                  Pedra de Torrinhas

Jackeline da Rosa Moreira e sua amiga Mirce Pazinato Ribeiro planejavam conhecer a região de Torrinhas, interior de Pinheiro Machado há alguns meses. Vasculhando o território através do Google Earth, encontraram alguns locais por mim mapeados. Jackeline conseguiu me contatar através do Facebook, e me solicitou ajuda para guiá-las até a Pedra de Torrinhas. Não sou vaqueano daquela região, mas sou amigo de um grande conhecedor daqueles pagos, o historiador Artêmio Vaz Coelho. Quando entrei em contato com ele, soube que se encontrava em Porto Alegre e que, em princípio, não poderia nos acompanhar porque tinha compromisso bem no dia da expedição. Porém seu espírito de pesquisador falou mais alto e decidiu guiar-nos pelos campos da segunda zona de Pinheiro Machado. Do centro da antiga Cacimbinhas, Artêmio e eu partimos em direção ao Cerro do Papilete, onde ele possui propriedade. De Caçapava, as gurias pegaram a estrada às oito horas da manhã e após seis horas de viagem e mais de cem quilômetros rodados, passando pelo interior de Santana da Boa Vista, atravessando a balsa sobre o Rio Camaquã, se encontraram conosco às quinze horas. Depois de deixarmos as mochilas no quartel-general ao pé do Cerro do Papilete, nos tocamos até a Pedra de Torrinhas.              
Após alguns minutos, chegamos ao vale do Velhaco, lugar repleto de cerros, chapadas e rochedos das mais variados tamanhos, cortados por sangas que deságuam no Arroio Velhaco. Dentre tantos acidentes naturais bonitos, destaca-se, imponente no meio do vale, a Pedra de Torrinhas, com sua estrutura que parece brotar em cima de um cerro. 

                          Pedra de Torrinhas parece brotar em cima de um Cerro - Vale do Velhaco

Ficamos tão fascinados com esta bela rocha que, até o entardecer fotografamos a mesma pelos mais variados ângulos. 

                                 Eu e o Artêmio ao pé da magnifica rocha "emoldurados" pelo céu e lua.
                                                                                    Sombra da pedra

                                        Eu e Artêmio explicando para Jackeline as origens da região

Quando o sol enfim se pôs, nos tocamos para nosso QG, onde sorvemos um amargo junto ao fogão a lenha trocando ideias, contando causos e histórias, enquanto seu Artêmio preparava um “arroz de china pobre” para jantarmos. Logo que amanheceu, encontrei as gurias tomando um chimarrão e as convidei para desbravarmos o Cerro do Papilete. Além do cerro, depois de me apartar delas, visitei a caleira e tapera do Papilete, italiano que deu origem ao nome daquela região. 

                                                           Caleira (forno de queimar cal) do Papilete

                                                                              Tapera do italiano Papilete


Quando retornei “pras casa”, encontrei o Artêmio tomando café. Recolhemos nossos pertences, pegamos a estrada e fomos conhecer o Cemitério dos Cativos. As gurias foram novamente até a Pedra de Torrinhas, enquanto nós seguimos em frente em direção à Vila de mesmo nome. No caminho visitamos o local onde foram executados alguns negros pós-revolução de 1893. 
Enquanto clicava paragens encontramos dois conhecidos que retornavam de uma campeirada com seus cavalos suados e cuscos de língua de fora. Já na Vila de Torrinhas, além do cemitério, avistamos o hospital, os antigos bolichos e onde outrora fora uma farmácia. Já era passado do meio dia e eu estava seco de sede. Então o Artêmio bateu na casa de um conhecido, justamente para pedir um copo de água. O dono estava almoçando e nos convidou para comermos, mas meu amigo agradeceu. Enquanto a conversa entre os dois prosseguia, minha fome aumentava. E quando o dono da casa me convidou novamente para almoçar, não resisti e comi um peixe cozido, arroz e polenta. Após me alimentar, agradeci ao seu Luís pela hospitalidade. 

                                                                                    Vila de Torrinhas

Da vila pegamos a estrada rumo ao Cerro dos Porongos. Chegando lá encontramos as gurias junto ao marco do movimento negro. Dali, as levamos para o marco alusivo ao combate farroupilha travado em 1844, onde nosso vaqueano contou um pouco da história do local. Mostrou um capão de mato ao pé do cerro, do qual corre um pequeno arroio, local mais provável para o acampamento farroupilha comandado por Davi Canabarro. Ao retornarmos para a estrada, fizemos a última parada no Marco da Guarda Velha, no qual foi assim denominado em virtude de ali ter existido uma guarda fronteiriça do tempo do Tratado de Idelfonso, lá pelas idos de 1777. Nesse local nos despedimos das gurias que pegaram a BR e se foram a Caçapava. Eu, por minha vez, retornei a Bagé. Com esta expedição realizei um sonho antigo, conhecer a região de Torrinhas, lugar fascinante, de belezas naturais sem igual, onde se podem avistar animais silvestres e ainda encontrar parte do bioma pampa conservado. Tudo isso somente foi possível graças ao convite das “papa laranjas” Jackeline e Mirce e pelo empenho do historiador Artêmio Vaz Coelho em nos guiar com maestria pelos campos da segunda zona de Pinheiro Machado e por sua acolhida hospitaleira junto ao pé do Cerro do Papilete.

                         Artêmio, eu, Mirce e Jackeline em frente ao "QG" ao pé do Cerro do Papilete

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ÉGUA MOURA

                           Eu e minha filha Guilhermina, no desfile farroupilha de 2010, em Candiota.

A moura foi domada pelo ginete Luciano Silva, morador do Baú, 3º Distrito de Candiota e adquirida junto à antiga Estância Elaine. Seu primeiro dia na nova morada não foi nada tranquilo, estranhou o ambiente e não queria se deixar pegar dentro da mangueira. Lembro-me de quando meu pai tentou pegá-la com uma corda, ela se esquivou mais que ligeiro soltando bufos pelas ventas e no mesmo instante partiu em disparada em direção à porteira. Tinha chovido e meu irmão, que estava encarregado de guardar aquele local, resvalou no barro e a égua saltou por cima dele, se mandando a “la cria” para o campo.  A partir desse momento, passou ser vista com outros olhos e alguns evitavam encilhá-la. Porém, eu me negava a aceitar aquele velho ditado: “a primeira impressão é que fica” e tratei logo de experimentar a égua. Ao contrário dos outros, peguei-a com facilidade e levei para o galpão, ali fui colocando com carinho o xergão, carona, basto, chincha, pelego e sobrechincha. Quando a encilha estava completa, recuei alguns passos, analisei a égua por inteiro e percebi que estava diante de um animal diferenciado, que aliava sangue e morfologia, oriunda da cruza das raças chilena e crioula. Depois de alguns minutos de contemplação, me prepararei e quando coloquei o pé no estribo, a égua pegou a volta e eu boleei a perna mais que ligeiro e me acomodei sobre o pelego. Do galpão saí campo afora, a trotezito no más, num tranco leve e macio,  onde a égua vinha atenta, trocando orelha a cada lote de gado que ao longe avistava. Então percebi que não estava montado em um cavalo qualquer e sim numa égua que conhecia a lida. Em seguida, se clareou uma oportunidade e coloquei a égua no serviço ao conduzir um lote de gado com perfeição até a mangueira. Ao embocar os animais em direção à pera, a égua se mostrou mui ágil, sempre atenta para que nenhum animal refugasse.  Campeiro que não estivesse bem firme nos bastos dela caía, pois suas volteadas eram muito ligeiras. Por muitos anos, foi a égua de minha encilha e perdi as contas de quantas campeiradas fizemos juntos. Na lida, não refugava parada e cruzava o que tivesse por diante em busca de alguma vaca ou boi matreiro. Certa feita, fui atacar um lote de gado que estava disparando para o mato e acabei caindo num manancial. Ali, a égua ficou atolada até o peito e de tanto fazer força para sair daquele local, acabou cortando a boca, mas graças a Deus não ficou com sequelas e em seguida se recuperou. Noutra ocasião, num dia de tormenta, a égua inventou de se coçar numa cerca de sete fios, sendo um destes farpado. Não sei como ali ficou uma noite inteira presa pela pata. Por sorte, quando amanheceu acharam a égua toda maneada entre os arames. Depois de muito trabalho conseguiram enfim resgatá-la, mas desse incidente ficou renga e com a cola pitoca, mas nada que atrapalhasse seu rendimento na lida, pelo contrário, melhorava dia após dia. Dentre os momentos mais marcantes houve um, em 2010, quando com ela participei do desfile farroupilha em Candiota, juntamente com minha filha. Alguns anos após, a égua sofreu outro acidente, semelhante ao primeiro, mas desta vez não teve escape e infelizmente veio a morrer. Não recordo há quanto tempo que te foste, égua velha, mas ainda parece que foi ontem que no teu lombo eu campeirava. Teu jeito, teu olhar, teu cheiro ainda permanecem bem vivos em minha memória e pode passar o tempo que for, eternamente serás a égua de minha encilha. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

CEMITÉRIO DA GUARDA RECEBE LIMPEZA E PINTURA EM TÚMULOS E MAUSOLÉUS

                    Voluntários a ONG Fazenda Esperança executando a limpeza entre os túmulos

O Cemitério da Guarda é um local de relativa importância história, pois além de ali, por volta de 1786 ter existido uma guarda de pequeno porte, também abriga os restos mortais de José Francisco Lacerda, conhecido popularmente como “Chico Diabo”, que se notabilizou por ter ferido mortalmente, com uma lançada o ditador Francisco Solano Lopez, em Cerro Corá, nos campos do Paraguai, no dia 1º de março de 1870, dando assim, fim a Guerra da Triplice Aliança, após seis longos anos de lutas. 

                         Voluntários a ONG Fazenda Esperança executando a pintura nos túmulos

O local fica a 20 km do centro de Bagé, na localidade conhecida como “Olhos D’agua”, hoje distrito de Joca Tavares. O mesmo se encontrava em total estado de abandono, infestado de capim annoni, árvores espinhosas e lixo por todos os lados. 
                                               Assessores também efetuaram a limpeza   

No entanto, dia 18 do corrente mês o vereador Uílson Morais, assessores e voluntários da ONG Fazenda Esperança colocaram um fim nessa triste situação e deram o devido tratamento que o cemitério necessitava. Além executar a limpeza do local, pintaram os túmulos e mausoléus ali existentes. 
                Vereador entre assessores e voluntários após pintarem o mausoléu do "Chico Diabo"

Essa iniciativa nos tempos de hoje, onde só ouvimos falar de escândalos envolvendo políticos, é digna de reconhecimento. Parabéns Uíslon Morais, finalmente Bagé tem um vereador comprometido em conservar a história de nossa cidade. Tenho certeza que este é apenas um dos muitos projetos que irás concretizar na Rainha da Fronteira. 



                                              Cemitério sob vários ângulos após a limpeza