terça-feira, 6 de setembro de 2016

A GUAMPA DE DINHEIRO DA ESTÂNCIA DOS SILVA

A antiga estância dos Silva ficava localizada à margem direita da estrada do Jaguarão Grande, em Candiota, sentido Dario Lassance/assentamentos (área hoje conhecida como Candiotão) e era de propriedade do Sr. Orlando Silva.

Tapera da antiga Estância de Orlando Silva. Candiota-RS.

Orlando a comandava com mãos de ferro e, em questão de três décadas, conseguiu conquistar dinheiro e prestígio na região, com muito esforço e dedicação.
Orlando tinha como costume escolher suas montarias, sempre de pelagem tordilha que, aliás, ao longo do tempo, ficou como sua marca registrada pois, sempre que ia a alguma carreira, marcação ou baile, o identificavam-no de longe como “o homem do cavalo branco”.
Na estância, sempre trabalhou com vários empregados. Entre eles: Luiz Alípio Duarte e sua filha Margarida Duarte.
Luiz relatava que, volta e meia, sonhava com Gaudêncio Silva, ancestral de Orlando, lhe mostrando um local, onde estava escondida uma guampa de dinheiro; porém, Luiz , por ter medo, nunca se animou a retirar.
Com o passar do tempo, Orlando foi ficando velho e doente, acabando por falecer. Uns meses após sua morte, numa noite qualquer, os peões estavam dormindo no galpão, quando, de repente, foram acordados com sons de cascos de cavalo e escaramuçadas. Foram averiguar e se depararam com a imagem de Orlando, bem montado em seu cavalo tordilho.
Tomaram um susto tamanho, que, no outro dia, pediram as contas e se foram embora.
Após a morte de Orlando, dona Margarida não viu mais razões para ficar na estância e mudou-se para a vila de Dario Lassance e ali foi tocando sua vida, normalmente, até que, anos após, sonhou com sua antiga patroa, Aracy Martins da Silva, falecida há vários anos, que lhe indicava o caminho, onde estava escondida a tal guampa de dinheiro, aquela mesma que seu pai falava. Estava chegando bem perto do local, quando, no sonho, tropicou numa pedra e despertou. A partir daí, com medo, nunca mais tornou a sonhar com a patroa.
Para sua surpresa, uma década depois, correu uma notícia na região: um funcionário da Secretaria de Obras da prefeitura de Bagé, ao retirar pedras de dentro da antiga estância, que já estava tapera, encontrou a referida guampa de dinheiro numa cerca de pedra, bem como dona Margarida e seu pai tinham sonhado.
Dizem que o tal homem, quando achou a guampa, admirado com tanto dinheiro, abandonou o caminhão em que trabalhava com todos seus pertences dentro e foi embora a pé, sem deixar rastros. E desde esse momento em diante, ninguém mais ouviu falar de seu paradeiro.

FONTES: Lopes, Cássio Gomes. “Mistérios da Noite – Causos de Assombrações”, Bagé, Pallotti, 2014. 88 p. 


ENTRE O AMOR E A GUERRA

Por volta de 1940, Arlindo dos Santos Nogueira foi trabalhar num tambo de leite na Chácara do Cotovelo, no bairro São Judas, na época interior de Bagé. A propriedade era do casal José Marimon e Maria da Glória Marimon, os quais tinham três filhos, sendo uma moça de nome Ondina, primogênita da família. Ela era morena de olhos castanhos. Arlindo bem que tentou resistir aos encantos da bela, mas não conseguiu e ambos acabaram namorando, contra vontade da mãe dela.
Tempos depois, Arlindo deixou a chácara para servir ao exército, no 3º Regimento de Cavalaria a Cavalo. Nisso estourou a Segunda Guerra Mundial e o Brasil, logo em seguida, apoiou o exército aliado. Começou-se então, em 1944, o processo de recrutamento por todo país. Arlindo não pensou duas vezes e se prontificou para essa nobre e importante missão. Após, comprou um par de alianças e foi até a casa de sua amada e prometeu que, se Deus permitisse que retornasse, os dois se casariam.

Foto de Ondina Marimon que Arlindo levou para Guerra

Para família, Arlindo não contou nada e, após arrumar sua mala, foi ocultamente até a estação ferroviária. Mas, pouco antes de embarcar, seu pai descobriu seu destino e tentou convencê-lo, aos prantos, para que não fosse. Entretanto o patriotismo falou mais alto e Arlindo partiu rumo a Rio Grande. Dali foi para o Rio de Janeiro, em fevereiro de 1944, onde ficou três meses em treinamento.
A viagem pelo oceano foi longa e cansativa e, depois de alguns dias, enfim chegou a Nápoles, em julho de 1944. Em solo italiano, além de enfrentar os inimigos, conviveu com a miséria daquele povo, o qual ajudava sempre que podia através de doações, principalmente para crianças. Mas, o mais difícil nesse período foi a saudade dos familiares e de sua amada, que compensava enviando fotos e postais.


Foto que Arlindo (a esquerda) enviou da Itália: “Vai a minha fotografia em prova de amor a minha querida Maria Ondina para lembrança do expedicionário brasileiro Arlindo dos Santos Nogueira”.

No teatro de operações, viu vários companheiros tombarem em campo de batalha. Em suas orações pedia a Deus que o protegesse. A Guerra já arrastava há meses. As chuvas e o frio deixavam o inverno europeu tiritante. O exército aliado tinha como objetivo tomar Monte Castelo, o que conseguiu após quatro tentativas frustradas, no dia 21 de fevereiro de 1945. Após a missão cumprida, Arlindo somente retornou para o Brasil quatro meses depois.
Em Bagé, após rever a família foi procurar a amada, mas não a encontrou, pois sua família tinha se mudado e ninguém sabia seu paradeiro. Então Arlindo lembrou que Ondina costumava cantar na Igreja Auxiliadora e, numa missa dominical, enfim a reencontrou depois de um ano e meio separados. Após, casaram e tiveram três filhos, sete netos e cinco bisnetos.

FONTES:
Lopes, Cássio Gomes e Lucas, Edgard Lopes. “A Rainha da Fronteira – Fragmentos da História de Bagé”, Bagé, Pallotti, 2015. 183 p.